
O Templo Dourado dos Sikhs é um dos lugares mais sagrados e belos da Índia.
Neste artigo
O Templo Dourado não funciona como uma atração turística comum, mas como um espaço sagrado de peregrinação.
Para chegar ao santuário, você é obrigado a descer degraus abaixo do nível da rua em vez de subir, o que simboliza a perda do ego e o dever de humildade perante Deus e a comunidade.
Foram construídas quatro entradas voltadas para os quatro cantos do mundo com o objetivo de acolher pessoas de qualquer lugar e romper a barreira das divisões tradicionais de castas, deixando claro que todos são bem-vindos, independentemente de religião, gênero ou classe social.

A chegada em Amritsar e o primeiro contato com os sikhs
Amritsar é uma cidade que, apesar de ser Índia, não é tão bagunçada quanto as outras, pelo menos na área central.
Toda aquela confusão típica de trânsito caótico e becos confusos dá lugar ao Corredor Heritage Street. Em 2016, a cidade passou por uma das maiores reestruturações urbanas da história da Índia.
O caminho que vai do antigo Town Hall até a entrada do Templo Dourado foi totalmente fechado, criando o primeiro grande corredor 100% de pedestres do país.
Nossa maior dificuldade na chegada foi conseguir táxi, para variar os ubers aceitavam a corrida e cancelavam logo em seguida, ficamos nessa até que um homem Sikh, daqueles que usam turbante, parou para falar com a gente em inglês.
Ele era motorista de aplicativo também e explicou que ninguém estava aceitando a corrida porque achavam o preço do aplicativo muito barato. Ele se ofereceu para nos levar pelo mesmo valor do Uber, só que por fora. Ali na chegada a gente percebeu que aquele homem que usava turbante parecia ser bem honesto e nos sentimos muito bem recebidos na cidade.
Depois fomos pesquisar melhor e descobrimos que o Sikhismo, que é a religião do Templo Dourado, dos homens de turbante, é a única na Índia que prega a igualdade absoluta e total em relação às mulheres.
Desde a sua fundação no século XVI, a filosofia sikh garante às mulheres os mesmos direitos espirituais e civis que os homens, permitindo que elas liderem orações e prega uma igualdade única na Índia (mesmo que na prática do templo ainda existam tradições e regras antigas que limitam a participação delas em certos rituais). A filosofia deles é interessante e fomos ver a prática ao vivo no Templo Dourado.

As regras e o respeito no Templo Dourado
Não é fácil descrever o Templo Dourado, primeiro ele é todo revestido de ouro 24 quilates e brilha muito! O lugar é lindo, lindo e tem uma aura de devoção quase palpável.
Nós fomos ao templo duas vezes. A primeira foi de manhã para ver como funcionavam as orações e entender o lugar.
Para entrar, é obrigatório cobrir a cabeça com um véu, tanto homens quanto mulheres, tirar os sapatos e passar por uma bacia de purificação dos pés (um pequeno tanque de água no chão) para deixar as impurezas do mundo exterior do lado de fora.
A gente sentiu que eles são extremamente queridos e generosos, mas também levam as regras muito a sério e lá dentro os guardas andam com uma espada na cintura.
Em um momento o meu véu escorregou e veio um guarda tradicional armado com uma baita espada apontando e fazendo sinal para eu cobrir a cabeça de volta. Não precisou falar duas vezes ...só me olhou sério.. deixou claro que o templo não é lugar para brincadeira ou turismo inconsequente.
E achei ótimo, porque realmente tem que respeitar a cultura e religião deles, nos deixam entrar em seu espaço sagrado então o mínimo que podemos fazer é nos comportar de acordo.
Eles serem “faca na bota” é baseado em um pilar central da religião deles, os sikhs batizados seguem um código de conduta restrito e são obrigados a carregar o Kirpan (a adaga ou espada) na cintura como um símbolo de proteção aos fracos, justiça e dever moral.
Até as mulheres usam, outro dia quando estávamos comprando um chip de celular, conhecemos uma mulher muito simpática, que era Sikh e ela nos mostrou a adaga que carregava na cintura.
Sem querer romantizar a religião, damos este relato para estarem preparados quando estiverem lá.
Existem muitas outras historias e até situações tristes e complicadas que ocorreram com os sikhs, mas que não vamos abordar aqui, mas sugiro que se for a Amritsar e for ao Templo Dourado, pesquise mais sobre a história deles.

A cerimônia noturna do Palki Sahib
Nossa segunda visita foi à noite e tivemos a chance de ver de perto a cerimônia Palki Sahib, que é o momento em que eles levam um livro para “dormir”.
Na fé sikh, esse livro não é tratado apenas como um papel, mas sim como o último Guru vivo. Ele passa o dia inteiro aberto no altar principal do templo recebendo orações. Todas as noites, por volta das 22h, ele é fechado com tecidos de seda e levado em uma procissão solene, saindo do prédio de ouro e atravessando a ponte até uma sala de descanso no Akal Takht, o prédio que fica bem em frente. Ele literalmente vai "dormir" e retorna na madrugada seguinte.
Nós participamos da procissão e foi chocante.
Tinha uma quantidade enorme de homens se acotovelando na entrada do templo, mas o interessante é que era um "apertamento" organizado. Não nos sentimos assustados nenhuma vez, era como se a gente fizesse parte do cortejo.

Sendo voluntários na maior cozinha comunitária do mundo
Nesta noite tivemos uma das experiências mais lindas que a gente viveu até hoje.
Fomos ser voluntários na cozinha comunitária do Templo Dourado, que serve refeições gratuitas para qualquer pessoa e já chegou a alimentar mais de 1 milhão de pessoas em um único dia. É a maior cozinha comunitaria do mundo.
Passamos uma hora e meia lavando prato e recitando os mantras junto com o pessoal.
Os voluntários iam entrando e saindo a cada 15 ou 20 minutos, ninguém ali falava inglês, mas todo mundo se tratava super bem por causa da vibração de devoção e bondade daquele lugar. É uma energia que se sente na pele.
Sugerimos muito que você conheça o Templo Dourado, mas vá de coração aberto para vivenciar uma das maiores demonstrações de respeito, doação, união e espiritualidade do mundo.
Um detalhe interessante é que existem templos Sikhs (chamados *Gurdwaras*) espalhados pelo mundo inteiro, da Índia à Inglaterra e até no Brasil. Em todos eles a regra da cozinha comunitária, o *Langar*, é sagrada e idêntica: qualquer pessoa, de qualquer religião, gênero ou classe social, pode entrar e comer de graça.

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